Amigos
Olhem bem para essa foto, além da fofura, se conseguirem. O loirinho é Zé, a outra criança - cuja imagem a mãe me autorizou a usar aqui - é Martin. Durante aproximadamente um ano, eles dividiram, entre si e com outras crianças, um espaço de socialização, algo como um jardim da infância, chamado Erê Ateliê.
Eu já conhecia os pais de Martin de longa data. Talvez mais o pai, até então. Depois do nascimento dos meninos é que, de fato, tornei-me amiga da mãe. Posso dizer sem medo de errar que é uma das melhores pessoas que eu já conheci na vida e uma das melhores mães também (já que mãe e pessoa não se confundem, correto?). Não por acaso, ela é meu contato de emergência em todos os lugares que pedem um contato de emergência, seja para mim, seja para Zé.
Não lembro se no dia dessa foto Zé já era autista. Digo, conhecidamente autista, de mim e de todos. Mas, com certeza, é uma foto de pouco antes ou pouco depois, quando as crianças típicas e atípicas não se diferenciam tanto entre si.
Percebam na foto o comum da primeira infância: ainda que cada um estivesse ali numa brincadeira própria, eles estavam juntos. É assim com as crianças em geral. Tenho outras fotos desse tipo entre os dois naquela idade. Nunca faltei, nem pretendo faltar, às festinhas de aniversário de TinTin, todas marcadas por temas, digamos, góticos e subversivos. É uma criança fascinada por vilões, não por heróis; por bichos assustadores, não fofos. É tudo para mim.
Mas eu não tenho mais fotos de Tin e Zé juntos brincando com o passar dos anos. E não é culpa de ninguém. Nossas famílias não se afastaram, ou somente o fizeram na medida em que, agora, aos 6 anos de idade, Zé ainda gosta da Galinha Pintadinha e não fala, enquanto o fluir da vida típica fez de Tin uma criança com linguagem complexa, habilidades motoras e cognitivas para jogar vídeo game, conversar, inventar histórias.
É tapar o sol com a peneira dizer que vamos colocar os dois para brincarem juntos hoje em dia. Zé segue andando de um lado para o outro, segurando e girando objetos improváveis, não brincando de faz de conta. Enquanto adultos se moldam a esse brincar (dizem, “não funcional”) do meu filho, crianças típicas não o farão e isso não tem a ver com a condução da educação dos pais. Onde um não quer, dois não brincam. Agora imaginem dois que não querem porque não compartilham interesses e habilidades.
Se é verdade que a gente se cria, educa e faz amigos brincando, a solidão do autista contagia a família inteira. Não estou falando só de mim. As famílias atípicas somem dos espaços públicos ou abertos ao público, assim como dos encontros e reuniões de lazer com outras famílias e amigos porque já sabemos de antemão que nossas crias não só não vão engajar nas brincadeiras com outras crianças, como também vão nos alienar do que quer que esteja acontecendo. É praticamente impossível conversar comigo numa festa, num restaurante, numa praça. Não existe, para nós, a ideia de “deixar as crianças brincando” e tomar um sorvete, mesmo de olho nelas. Se eu fizer isso, meu filho pode comer areia, sair andando por uma avenida, ou traçando um labirinto entre as mesas da sorveteria, onde ele ficará preso e me prenderá junto, indo e voltando pelo mesmo traçado.
Embora mães de crianças típicas fiquem com um olho no peixe e outro no gato, diria que, no meu caso, sou obrigada a olhar só o gato. Ou só o peixe. E assim, socializar é só cansativo. É só elevar exponencialmente o cansaço que já experimento dentro de casa, acrescido das explicações, a eventuais estranhos presentes: “ele não fala, me desculpe”; “ele é autista, perdoe o incômodo”.
Hoje, se uma amiga, seja ela mãe ou não, ainda me convida para sair (a maioria já sumiu faz tempo), só consigo pensar em ir pagando alguém para ficar com Zé, seja em casa, seja no local escolhido para o lazer, porque não terei condições de ouvir, de trocar, de rir, de chorar, de qualquer coisa, como se ainda fosse mãe de uma criança de 1 ou 2 anos. Então, sair para voltar mais arrasada, prefiro não.
Vejam, ninguém tem culpa. Nem mesmo quem parou de chamar porque eu nunca vou (e não fazem isso como reprimenda, mas como esquecimento mesmo, quem não aparece, vai sumindo também da memória dos outros), nem eu com minhas reiteradas recusas. Se maternar é experimentar a vida também pelos sentidos que os filhos nos trazem, a mim cabe experimentar a solidão do autismo, que se soma à outra que já era minha, própria.
Hoje, tenho uma meta de realmente ganhar mais dinheiro e consolidar a presença de alguém para dividir os cuidados com Zé aos finais de semana, ou de 15 em 15 dias, e me permitir sair sem ele. Porém, percebam, são coisas distintas. Aos 6 anos, eu queria mesmo era sair com meu filho e outras crianças e experimentar essa socialização, observá-la, intervir quando preciso e me emocionar, como acontece com as mães cujos filhos, a essa altura, já possuem seus melhores amigos e amigas.
Será que Zé, um dia, vai ter melhor amigo ou amiga? Será que algum dia ele vai ter amigos?
Fico por aqui. Agradeço a vocês que permanecem me lendo, enquanto escrevo sobre maternidade atípica, esse vão de pé direito muito alto e grande largura, onde se ouve até o caminhar das formigas e nenhuma voz humana.
Próxima parada na leitura de “Outra sintonia”: 29 de julho, às 19h. Enviarei email para quem participa (retomaremos da parte VI - Redefinindo um diagnóstico).
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Eu não lembro se já comentei em algum texto teu. Inclusive, tomei até um susto quando vi que ainda não estava inscrita na tua newsletter e corri para me inscrever, porque já tinha lido outros textos seus. Não sou mãe, nem tenho desejo de ter filhos, mas estudo sobre o autismo por conta da minha formação. E, para mim, você é uma das poucas pessoas que vejo falando sobre a maternidade atípica como ela é, sem rodeios, sem romantização (diferentemente do que vejo no Instagram, no TikTok e afins). Você escreve de uma forma crua, honesta, botando o dedo na ferida ao abordar determinados temas (como a questão do autismo enquanto espectro, sobre a qual já li em outros textos teus e concordo 100% contigo).
Muito obrigada por esse texto. Ou melhor, muito obrigada por compartilhar a tua vivência e por escrever sobre ela.
Eu não sou mãe, então não tenho a vivência do maternar, menos ainda de uma maternagem atípica. E cada texto é um soco - necessário e merecido - no meu estômago... Cada possível solução que minha mente afoita e arrogante elabora é devidamente rechaçada após mais um parágrafo de leitura.
E termino olhando pro nada sem saber exatamente o que fazer, mas com a certeza de que me esconder por trás da ignorância é uma covardia.