Acolher
mas como?
Acolher é uma palavra que está em alta. Pelo menos, a palavra.
Se o assunto for inclusão ou educação inclusiva, então, a cada 10 palavras, 5 são acolher ou acolhimento. Eu fico com a impressão que acolhimento é um ato de vontade. Você quer, você acolhe. Sei, no entanto, que isso é falso.
O mês de outubro foi um inferno. Antes mesmo do dia das crianças, Zé teve febre. A febre não passou com os antitérmicos comuns em 72 horas. Fomos ao hospital. Como era de se esperar, tome antibiótico. E em mais 72 horas, ainda febre. Resultado? Mais antibiótico. Tudo isso sem escola, sem terapias. Ele e eu, 100%. Digo, 90%, vai, não quero excluir completamente minha mãe desse cenário, ela faz o que pode. Minha mãe caminha em direção aos 80 anos.
Foram bem uns 10 dias até os sintomas do que, supostamente, foi uma otite, irem embora e deixarem uma criança completamente diferente em minhas mãos. Agressiva, autolesiva, sem sono, com 4 ou 5 crises por dia. Levei à pediatra. A consulta foi impossível. Para dizer o pouco, ele derrubou o monitor do consultório com uma mãozada. Mal deixou aferir o coração e o pulmão.
Corri para pedir ajuda à psiquiatra (Catarina, você está aí? Obrigada!). Para o sono, depois de tudo tentado, tudo mesmo, começamos a risperidona. Bateu em mim como uma derrota para o Fluminense na Libertadores. Porque, de tudo, isso tinha sido meu mais retumbante “não” desde o diagnóstico. E Catarina nunca efetivamente prescreveu risperidona para Zé. Ela apenas disse, depois que eu avisei que nada mais estava funcionando, que havia essa última opção. Rejeitei.
Um belo dia… Dia? É, às duas da manhã é dia, depois de muito muito muito muito muito tempo sem saber o que era dormir, enviei uma mensagem inadequada e inoportuna para ela dizendo “eu aceito a risperidona”. (Catarina, você está aí? Desculpa!) Fiquei ainda outro dias com a receita zanzando na bolsa. Afinal, comprei.
Iniciamos o uso. Não sei no que vai dar. Não é tão claro por enquanto. Afinal, todas as opções anteriores começaram bem e depois de um tempo o organismo de Zé acostumou e deu em nada. Agora, estamos lidando com uma droga que já tem a fama de “viciar” rápido, então…
Isso tudo para falar de acolhimento. Pois é, faltou. Estou falando do meu filho. Estou falando de mim. Melhor, digo, pior, estou falando de eu não conseguir acolher meu filho. O mês foi repleto de gritos meus. Dentre as palavras gritadas, o expresso desejo de morrer, que até então, quando surgia, sempre engolia, bonitinha como boa menina que minha mãe me ensinou.
Junto aos gritos, eu levantei, mais de uma vez, as mãos para o meu filho. Em umas dessas vezes, elas desceram até as perninhas dele. Um tapa. De novo, dois tapas. Zé se defendeu. Dessa vez, não com as mordidas e arranhões que fazem parte da geografia do meu corpo há anos e, esse mês, com mais intensidade, devido às crises dele. Dessa vez, ele decidiu parar de dormir comigo. Há um mês, dorme com a avó. Justo.
Essa não foi a única vez que eu não acolhi Zé. Essa foi a vez mais dramática. Eu já falei coisas abomináveis e, com frequência, se não falo, eu sinto. Possivelmente, minha cara denuncia meus pensamentos e, claro, eu me culpo.
Mas antes de ontem, aconteceu algo que me deu perspectiva e dimensão - sem que, com isso, qualquer dor ou culpa tenham sido diminuídas - do que se passa entre meu filho e eu. Em um momento de total desespero, sei lá porque, minha mãe estava falando de alguma grávida próxima a nós, exames pré-natais, pré-eclâmpsia, e eu soltei que seria bom ter morrido no parto. Nem me perguntem mais, porque estou só o Chicó: só sei que foi assim.
Só que se vocês acham que o pior foi o que eu disse, é porque vocês não viram a reação da minha mãe. Ela brigou, xingou, e me acusou de coisas não vou reproduzir aqui. Levantei da cama onde estava prostrada e saí de casa sem dizer uma palavra. Fui parar sem nada, celular, dinheiro, chave, nada, num ponto de ônibus não muito longe daqui e que tem uma estrutura que me pareceu razoável para deitar.
Lá deitada no ponto de ônibus, fiquei pensando - e chorando muito também - no quanto minha mãe nunca soube me acolher. E eu não vou fazer disso aqui uma sessão de análise sobre minha infância. Basta dizer que, em geral, tudo que é de prognóstico ruim sobre Zé guardo para mim porque não quero lidar com ela surtando, xingando especialistas, negando, brigando comigo, fazendo literalmente qualquer coisa que não me acolher. Já há algum tempo, ouço que o caso de Zé é “severo”. E é severo ouvir isso e guardar. Guardar e ficar escutando delírios sobre “quando ele estiver falando tudo” já é uma espécie de morte, sim.
Que mãe ouve a filha dizer que gostaria de ter morrido no parto e briga com ela?
Desde que Zé nasceu, eu já tinha percebido que, para minha mãe, eu me tornei um instrumento de satisfação das necessidades dele. Um exemplo: se ele dorme 3 da manhã e tem terapia às 9, ela repete constantemente que, quando ele era bebê, eu conseguia trocá-lo ainda dormindo e levar à terapia. Isso realmente acontecia. Hoje, no entanto, não consigo mais. Se ele dorme 3, eu vou dormir 5, e acumulei anos de privação de sono. Sem falar que ele pesa muito mais hoje e também já não permite que se manipule o corpo dele adormecido tão facilmente (já levei várias mordidas muito fortes fazendo isso). A minha necessidade de dormir ou incapacidade física não entram nos cálculos dela. Às vezes, até brinco: “para Zé chegar à clínica, um SER HUMANO precisa levá-lo”.
Que mãe não percebe que entre o neto autista e as terapias dele existe uma pessoa e essa pessoa, por acaso, é a filha dela?
As respostas a essas perguntas, ali deitada no ponto de ônibus, numa noite de ventania, vieram de uma vez só: uma mãe que foi xingada quando expressou uma dor da alma; uma mãe que aprendeu que mãe é instrumento de satisfação do filho até a última gota; uma mãe que não foi acolhida quando filha não vai acolher quando for mãe. Eu sei que minha avó não acolheu minha mãe. Inclusive, quando minha mãe não queria mais viver.
Saber disso é importante. Tudo bem, não tive uma epifania no ponto de ônibus. Essas ideias já estavam comigo, só voltei a elas naquele momento. Em relação à minha mãe, com seus quase 80 anos, vocês me perdoem o etarismo aqui, mas largo de mão. Não farei absolutamente nada, salvo me proteger. Quanto menos assunto, melhor. Quanto mais amenidades, melhor. Inclusive, porque a rigidez cognitiva dela não começou depois de velha, não… Pois é.
O problema é daqui por diante. A grande questão é acolher meu filho. Comecei esse texto falando que acolher não é um ato de vontade e repito. Não é ou não é só. Acolher se aprende e não me parece algo da ordem do autodidatismo. Minha avó que não acolheu minha mãe que não me acolhe (e não estamos falando de comida, roupa e escola, tudo bem, gente?). E agora? Agora eu que me vire sozinha? Eu não sei nem por onde começar.
A infecção cedeu. A febre foi embora. Os exames indicam que está tudo ficando bem. Zé voltou às aulas. Foi à festa do pijama. Voltou à natação. O comportamento dá sinais de melhora. O apego à tela piorou muito após o tempo em casa. Nunca mais levantei a mão para ele. Ele segue dormindo com a avó. Voltei a gritar com ele e com todo mundo perto de mim. A pontuação baixa no pós-doc por causa do baixo volume de publicação nos últimos 5 anos (Zé tem 5 anos) piorou tudo. Passeamos mais nos últimos finais de semana, com a ajuda da Acompanhante Terapêutica (obrigada, Vitória!). Vou a esses passeios querendo morrer um pouco mais, mas vou. Eu não sei acolher meu filho. A menina que foi uma criança “tão boazinha que ninguém percebia que tinha criança em casa” ficou sozinha na vida muito cedo. Muito mais cedo do que se lembrava.
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O sonho mesmo seria conseguir, além do valor da escola, um salário mínimo para a mãe, esta que vos fala, a autora do trabalho invisível e não remunerado que é maternar uma criança atípica, e das palavras tortas que vocês leem por aqui.
Por isso, em busca desse sonho, a NOVA META é 250 assinantes pagos. Obrigada desde já e vá desculpando a bagunça. 

Na maior parte das vezes pós ler seus textos, fico sem palavras e por isso que venho aqui e deixo só um coração. Estou dizendo isso apenas pra ficar claro que não é por falta de emoção, é por falta de palavras mesmo. Te ler tem me feito acessar emoções que eu nem conhecia antes do Substack, Aline. Então, é isso. ❤️
Querida, essa frase "Desde que Zé nasceu, eu já tinha percebido que, para minha mãe, eu me tornei um instrumento de satisfação das necessidades dele." pega demais, porque seja neurotípico ou não seja, é não menos do que isso que tantas mães exigem das filhas. Uma linha de transmissão que faz da maternidade um castigo para as mulheres. Sinto muito.