Perdemos
Estava me preparando para escrever com notícias boas. Com a minha saúde melhorando, o emprego melhorando, enfim, nada grandioso, mas a mãe atípica não é um ser de grandiosidade, nossos deuses são os deuses das pequenas coisas.
Porém, antes que eu pudesse molhar a pena, recebo a notícia que o TJSE derrubou uma decisão favorável a Zé, que reconhecia o caráter falso e abusivo do contrato do plano de saúde. Mesmo com o Ministério Público atuando a nossa favor, bem como o juiz de primeira instância.
Isso significa que teremos que recorrer ao STJ, o que só será possível porque tenho amigos(as) que estão nessa pró-bono, segurando minha mão. Mas só o fato de ter que recursar num tribunal superior me deu uma rasteira absurda. Eu realmente não esperava perder na segunda instância, um caso tão óbvio e com jurisprudência assentada no próprio TJSE. E, no entanto, perdi. Ainda difícil de assimilar. Mais difícil ainda porque isso significa que o plano vai poder aumentar na virada do ano de forma astronômica novamente (e, sim, estou falando de janeiro de 2027 como se fosse amanhã porque o tempo do judiciário é esse).
Estou cansada de litigar. É plano de saúde, é genitor. Todos negando o inegável, o básico, o mínimo para o meu filho viver com dignidade. Eu já trabalho, de maneira extremamente precária, em 3 ou 4 lugares diferentes, aos finais de semana, inclusive, e vendo livro, vendo cosmético, além, claro, de contar com o suporte de vocês para uma escrita que, eu sei, não vale nada.
O nosso processo é sobre um plano de saúde que tem duas pessoas mas é “coletivo” (ou seja, um falso coletivo), uma artimanha usada para as seguradoras e planos não se submeterem aos patamares de reajustes da ANS. Para vocês terem uma ideia, enquanto um plano individual ou familiar regido pela ANS pode aumentar 10 ou 11%, quem tem plano coletivo recebe aumentos de 40, 50, 70%, de um ano para o outro. Essa insegurança jurídica e vital é chancelada pelo Judiciário, e no momento, Zé é a vítima da vez.
Eu não preciso de plano de saúde, só tenho um porque sou obrigada a ter, porque não vendem só o de Zé. Posso, como qualquer pessoa da minha classe, procurar o SUS. Além do mais, minha saúde, até aqui, é boa. No entanto, a ideia de Zé perder o plano me assusta mais do que qualquer coisa. Sem plano, sem terapias. Afinal, elas custam cerca de R$15.000 por mês, por baixo.
Tem um efeito muito estranho que se dá nesses momentos. Por mais que eu entenda o judiciário, o mercado, o autismo, a sensação é que se eu tivesse feito outras escolhas na vida, não passaria por nada disso. Acho que o nome é culpa. Culpa por não ter ido estudar para ser juíza, mesmo querendo ser artista (falhei) ou professora (falhei mais ou menos). Até mesmo a vulnerabilidade em que a condição de mãe atípica me lançou parece um castigo pelas escolhas que fiz e não fiz. Afinal, o problema não é Zé ser autista, é eu não ter dinheiro para cuidar dele tranquilamente, e ficar na mão do Bradesco e do TJSE.
Senti que não tinha com quem conversar e escrevi essas linhas. Acho que ninguém mais me aguenta no individual, então, socializo minha insuportável, modorrenta ladainha de forma impessoal (mesmo ao custo de estar perdendo assinantes pagos).
Está rolando uma discussão sobre retirar direitos (redução de impostos) de autistas “nível 1” de suporte. Não vou me jogar nas discussão porque na hora que precisamos lutar pelo tipo de terapia que nossos filhos “nível 3” precisam, somos acusadas de tortura e outros absurdos, porém, não sou uma liberal sem vergonha na cara que pensa o mundo pela lógica da escassez. Com isso, é óbvio que sou contra a retirada de direitos, mesmo sendo a favor da separação dos diagnósticos.
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Não largo a sua mão de jeito nenhum, só se perder vcs de vista.
A sua luta é a minha luta, deve ser a luta de toda e qualquer mãe, pois sendo típica ou não, precisamos estar juntas nos direitos de nossos filhos. Vejo a sua luta, sou mãe e avó e fico furiosa quando a justiça não cuida das nossas crianças como deveriam, mais ainda quando tiram direitos que deveriam ser inalienáveis.
A subserviência do judiciário aos planos de saúde é uma das coisas mais absurdas. Lamento muito que dentre todos os desafios você ainda tenha que lidar com essa injustiça. Que bom que você tem amigos com OAB que te apoiam para mais esse round.
Seguiremos acompanhando, sua escrita tem o valor das coisas que realmente importam.
Que essa briga nas instâncias superiores escancare os absurdos por trás dessa decisão.